Convivência

Eu tentei te esquecer, é verdade. Apaguei qualquer resquício material ou digital que restava de você. Excluí seu contato, deletei nossas conversas… Aquela camiseta que você me deu, lembra? Que compramos idênticas no show? Enfiei no fundo da última gaveta, debaixo de uma cortina velha que nunca usei. Escolhi te evitar a todo custo – ainda que custasse minha festa favorita do ano. É a sua predileta também, se não me engano.

Talvez você se pergunte: adiantou? Bom, a existência deste texto há de responder por si só. Fato é que levanto da cama todos os dias com a mesma porra de música na cabeça e uma imagem bem nítida do seu rosto. Sem contar quando não penso em você antes de dormir, ou sonho com você pouco antes de acordar.

A um tempo, fui num bar cubano dançar salsa, e não pude deixar de ponderar o quanto você curtiria o local e em como nos divertiríamos juntos. Sei lá, costumava ser divertido, até ficar complicado demais – coisa que, na minha cabeça, ainda não faz sentido.

Ah, é! Lembro também de soltar um samba com minha família e imaginar como seria te ter ali. Noutro caso, voltando pra casa de carro com meus irmãos, passei por um restaurante bacana. Anotei o endereço, planejando um convite de nós dois. A gente já não se falava mais… Vai ver foi o costume.

Sabe, essa total ausência de contato está me deixando meio louco e um tanto amargo. Sem contar que tudo agora parece em tons de cinza.

Dessa nossa distância, percebi que tenho mais amigos do que imaginava. Tenho quem me deseje e muitos lugares onde ir. Mas também descobri que não há antídoto pro que sinto – esse mix de amor, tesão, dor e raiva.

Então, decidi mudar de estratégia. Vesti a camiseta que você me deu. Criei uma playlist de todas as músicas que me lembram você. Recuperei a foto do show só pra ver teu rosto e lembrar que, ao te levantar acima da multidão, a sua bunda ficou deliciosamente perto da minha cara.

Lembro de você dizer ter sido a melhor noite da sua vida. Queria ter dito que foi a minha também. Porque foi. Porque é – apesar da tristeza que agora trás.

Lembra quando inscrevi seu nome pra ir a Marte? Recuperei, do site da Nasa, o seu boardpass. Agora guardo-o comigo como se, de fato, estivesse em Marte, tendo apenas o seu nome pra me acompanhar – quem há de dizer o contrário?

Escrevi sobre você. Forcei à memória todos os nossos momentos juntos. Pensei no beijo que te dei. Pensei também nos que me esforcei para conter. Lembrei dos nossos atritos, dos silêncios, do desdém… Lembrei do frio na barriga, e chorei algumas vezes.


Se não consigo te esquecer ignorando a sua existência, pensarei em você o quanto puder!

Até que a lembrança não me assuste mais.


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